Ninguém está preparado para o Punk da Roça
Vou tentar ser bem breve, pegando emprestado a linguagem poética da música punk: serei incisivo, rápido e curto.
Também é altamente sugerido a escuta e leitura da letra das músicas Punk do Mato e Persistence of Vermin, das respectivas bandas garrafa vazia e the order of the fly, seja antes, durante ou depois do texto.
Tenho 23 anos, toda minha vida cresci longe dos grandes centros, em um município de vinte mil habitantes no baixo sul baiano, que possui toda sua atividade econômica baseada em monocultura de cacau.
Imagine como deve ser, viver como um dissidente em um ambiente como esse? Como deve ser não se sujeitar a moralidade hegemônica onde o fundamentalismo católico nada de braçada?
A única palavra para se descrever essa experiência localizada minha mais de alguns outros que tive a felicidade de conhecer é: SELVAGEM, ser PUNK, ser Outsider nessas bandas, meu querido cara pálida, está muito além do seu horizonte podado pelo realismo urbano.
Vejo tantas pessoas, muitas vezes de metrópoles ou cidades de médio porte, reclamarem do caos, da velocidade, do barulho da paisagem urbana, reivindicando o interior, a roça, o meio rural bucólico de suas fantasias superficiais como uma grande saída...não poderiam estar mais enganados.
Com isso também não estou querendo de alguma forma amenizar as violências constantes que muitos são sujeitos nas grandes cidades.
O que me irrita é associar essa opressão com a falta de ordenação e fluxos irregulares...É mais sobre como nossos algozes capturam essas forças para tornar a vida do civil comum um inferno.
Não existem fluxos de direção única, tudo é uma janela de oportunidade, o mesmo caos que oprime o residente urbano, onde eu vivo significa libertação e respiração.
O verdadeiro horror reside no silêncio, e nas cidades do interior é isso que oprime, a inércia absoluta, a estagnação, as tradições cisheteronormativas e masculinistas aqui possuem uma força avassaladora, elas ditam um congelamento sufocante no tempo. Vocês não sabem quão desesperador é a inércia voraz de um espaço vazio, a gravidade por aqui é mais forte.
Não temos clubes, shoppings, e espaços de convivência mútua que permitam uma existência diferente daquilo que é imposto pela hegemonia dos agrolordes. Por isso música e cultura "alternativa" nesse ambiente precisa ser aquilo que vocês mais abominam e chamam de causa de sua infelicidade: a velocidade, o barulho, o choque, o nilismo, a fragmentação...é a única maneira de sobrevivência nessas geleiras cronomanciais.
Não é uma mera questão de querer chamar atenção ou ser "edgy", apenas é a única maneira de conseguirmos algum calor para não sermos soterrados pelo inverno eterno dos sacerdotes babilônicos.
O que dá sentido é abraçar a escuridão onde a ordem da luz é quem determina quem é fuzilado no muro das lamentações ou não. Seu paroquialismo solarpunk e universalista não dura muito por essas terras...ou se torna obscurantista, filho da noite, monstro ou morre e faz parte da mente de colmeia dos senhores do cacau.
O mundo pelo qual eu luto é um mundo feio e grotesco, profundamente luciferiano onde a noite não tem fim, quando se encara o coração das trevas da selva cara-a-cara, acho muito difícil chegar em outra conclusão.
Chegando ao fim desse desabafo, o punk aqui na roça, não é só selvagem, ele é dos monstros...horror punk e Black metal não são mera trivialidade estética, isso é fruto da mente de quem não experenciou o mundo cemitério que existe da ponte pra cá.
E parafraseando a música homônima da seminal banda American Werewolves, ou também conhecido como "os reis das ruas de Cleveland":
"and now they call us monsters
and now they call us creeps
and all i ever wanted was
to make them scream
i’ve seen the devil, baby
i’ve seen him in your eyes
if you saw the world was ending
would you be afraid to die?"
Meu nome é Crax Indris, o fantasma acobreado, nasci do lodo escuro da Roma negra, monstrifiquem-se.

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