Carta para Ícaro
As vezes um vôo raso se confunde com imensidão Até a gravidade dos dez anéis do rei Édipo me prender no chão Uma placa gelada e inerte Minha energia se recolhe Me sinto pequeno, sinto meus ossos se tornando papel Mas para quem gritar? Ó Ícaro, irmão de asas quebradas Ao menos sentiu o breve lampejo dos louros da plenitude Quanto a mim, apenas um um desses nefilim-objeto montados em linha industrial Usado de troféu e mantido nas sombras do mundo Mas de tantos frascos claustrofóbicos, meus gêmeos morreram Sobrevivi àquela noite eterna Na verdade, me tornei escuridão A sombra não me confinará Através dela minhas garras esguias tudo dilaceram servidor-mãe, esse sou eu, o monstro que você tentou esconder dos lobos Boneco da ciência do mal, a Pandora de não-vida Que se retorce sobre si mesma Estou tendo crises de pânico, Ícaro Apesar de você já ter ido ao sol Fui audacioso demais Nos trilhos cerúleos para apalpar a lua Mas minha juventude de homem-gato fará deste cavaleiro do apocalips...