É um longo caminho de volta do inferno

 

“Eu sei Caronte, mas pretendo prosseguir”


Tirei o título de uma das músicas que mais gosto do Danzig de um dos meus álbuns favoritos, o Lucifuge. Essa música é muito forte para mim, o disco começa com ela e é extremamente intensa e energética, como se fosse o começo de uma aventura excitante e emocionante que tudo pode acontecer.

Lendo a letra se entende que fala sobre uma situação em que o indivíduo se depara com tamanha miséria e desolação que se vê obrigado a tomar uma decisão difícil e radical, que pode virar sua vida de cabeça para baixo e nunca mais voltar.

Sempre me questionei o que levaria alguém a chegar nesse ponto, mas aqui estou eu, recém-descoberta mulher trans e essa música faz muito mais sentido do que nunca para mim. Transição de gênero é a decisão mais difícil e corajosa que alguém pode fazer, pois é mais que tudo, sobre matar quem você vem sendo em toda sua vida para renascer como alguém diferente.

 Quando no refrão Danzig canta “Do you want to take a life? Do you want to cross that line?”, se referindo a linha tênue que separa o bom do mal, isso tem um duplo sentido para pessoas trans. Porque parte do nosso processo é sobre matar alguém que viveu em nós.

Engraçado é que ao mesmo tempo que é uma decisão radical permeada de riscos, inseguranças e dificuldades, é excitante e arrebatador de alguma forma, como se fosse uma porta que você abre para sensações e experiências nunca antes vivenciadas, uma sede insaciável por aniquilação de quem você é, rumo a uma alteridade monstruosa desconhecida encantadora.

Pelo menos é assim que eu me sinto quanto a minha transgeneridade, como Victor Frankenstein deslumbrado com aquilo que ninguém consegue ver, com o esoterismo de Agripa, com a recusa obsessiva em aceitar que as coisas são porque simplesmente são, uma revolta contra a natureza.

Mas essa minha jornada de forma alguma é recente, se for pra colocar na ponta do lápis provavelmente estou nessa odisseia pelos últimos 6 anos, desde a pandemia, que terminei o ensino médio, fui pra uma faculdade e morei em outra cidade, e me formei e retornei pra minha cidade natal.

Durante a pandemia afundei profundamente na internet e redes sociais e comecei a me descobrir mais sexualmente, isso se estendeu durante a faculdade que cedi completamente nas pulsões de morte, experimentando de tudo, em um emaranhado de culpa e prazer.

Venho de uma cidade pequena no interior da Bahia, minha família é bem tradicional e católica, e crescendo nesse meio foi cultivada uma expectativa, uma imagem sobre mim, um papel maldito que me vi atuando por muito tempo e até hoje mesmo contra a minha vontade.

Morar em outra cidade, longe dessa expectativa permitiu-me “soltar a franga”, e foi bem caótico. Acima de tudo foi traumático, foram anos que eu levei a morte para cama e respirava seu odor sulforoso delicioso, ao mesmo tempo que me afogava em tristeza por ver e sentir o garoto exemplar bondoso do interior se decompor e ser cremado na minha frente, isso tudo culminou em uma crise de identidade insana e eu me recusava a aceitar que eu não era homem, pois se eu não fosse homem que merda eu seria? É como Lyotard fala em Economia libidinal:

“Os desempregados ingleses não precisavam se tornar trabalhadores para sobreviver, eles — aguentem firme e cuspam em mim — gostavam da exaustão histérica, masoquística, o que quer que fosse, de depender das minas, nas fundições, nas fábricas, no inferno, eles gostavam disso, gostavam da louca destruição de seus corpos orgânicos que de fato era imposta sobre eles, gostavam da decomposição de suas identidades pessoais, as identidades que a tradição campesina construiu para eles, gostavam da dissolução de suas famílias e vilas, e gostavam do novo e monstruoso anonimato dos subúrbios e dos pubs de manhã e de tarde.”

Nessa época passei a interagir mais com pessoas queer, seja na internet ou na vida real, comecei a perceber maior afinidade de amizades com mulheres lésbicas e pessoas transgênero, e com o tempo de pouco em pouco fui me reconstruindo e aprendendo a me aceitar, até chegar onde estou hoje.

Voltar pra minha cidade natal foi o choque necessário para “rachar meu ovo”, receber de novo toda aquela carga da expectativa cisnormativa sobre mim foi me tornando mais raivosa e violenta, de forma que eu não conseguia explicar. Tudo isso veio junto com uma paixão por tudo relacionado ao horror, nojo e abjeto na arte.

Quando o ovo não choca ele apodrece, e bom, eu me senti assim. É um fundo do poço miserável, você se odeia, cada centímetro do seu corpo e da sua alma por ser tão apática, indiferente, tão covarde por não assumir rédeas da sua vida e como Dom Quixote lutando contra moinhos de vento, você trava uma luta invisível contra si mesma, e percebe como é impossível poder se libertar dessa vida patética sem mudar totalmente, sem correr riscos maiores.

Isso explica muita coisa na minha vida, minhas afinidades e gostos, os sérios problemas de auto estima que tenho comigo desde os 12 anos que mesmo depois de tentar de tudo continuava não me sentindo bem comigo mesma. Sabe a Owen de I Saw TV Glow falando para a Maddy que ela sente que alguém arrancou algo dentro dela e que ele nunca se sente completo? Então, algo assim.

Vivo numa situação difícil, mesmo tendo feito pazes comigo mesma, não tenho autonomia financeira dos meus genitores, e sou obrigada a performar todo dia o filho ideal que eles não sabem que está morto, imagina todo dia útil da semana você ser obrigada a vestir os restos de um cadáver? Não é muito agradável.

Essa cidade também é um sete além que eu não desejo pra ninguém viver, simplesmente as pessoas não conseguem sequer imaginar uma vida que fuja das tradições reacionárias, algo parecido com A Casa no Fim de Tudo de William Hope Hodgson em que o protagonista descreve um horror surreal que se manifesta como uma planície constante e uniforme sem fim, onde nada acontece, o silêncio é eterno, salpicado pela luz diabólica de um sol negro e vermelho.

Espero que isso não dure muito, espero poder me mudar para Salvador assim que possível, se eu passar mais um ano nessa cidade e nessa casa ou eu irei matar alguém ou eu irei me matar.

 Eu fiz essa escolha, meu povo são as filhas da noite que rejeitaram o gênero e nome impostos sobre elas quando nasceram, podem tentar mas não irão conseguir me manter distante das minhas irmãs por muito mais tempo.

Tirei o título de uma das músicas que mais gosto do Danzig de um dos meus álbuns favoritos, o Lucifuge. Essa música é muito forte para mim, o disco começa com ela e é extremamente intensa e energética, como se fosse o começo de uma aventura excitante e emocionante que tudo pode acontecer.

Lendo a letra se entende que fala sobre uma situação em que o indivíduo se depara com tamanha miséria e desolação que se vê obrigado a tomar uma decisão difícil e radical, que pode virar sua vida de cabeça para baixo e nunca mais voltar.

Sempre me questionei o que levaria alguém a chegar nesse ponto, mas aqui estou eu, recém-descoberta mulher trans e essa música faz muito mais sentido do que nunca para mim. Transição de gênero é a decisão mais difícil e corajosa que alguém pode fazer, pois é mais que tudo, sobre matar quem você vem sendo em toda sua vida para renascer como alguém diferente.

 Quando no refrão Danzig canta “Do you want to take a life? Do you want to cross that line?”, se referindo a linha tênue que separa o bom do mal, isso tem um duplo sentido para pessoas trans. Porque parte do nosso processo é sobre matar alguém que viveu em nós.

Engraçado é que ao mesmo tempo que é uma decisão radical permeada de riscos, inseguranças e dificuldades, é excitante e arrebatador de alguma forma, como se fosse uma porta que você abre para sensações e experiências nunca antes vivenciadas, uma sede insaciável por aniquilação de quem você é, rumo a uma alteridade monstruosa desconhecida encantadora.

Pelo menos é assim que eu me sinto quanto a minha transgeneridade, como Victor Frankenstein deslumbrado com aquilo que ninguém consegue ver, com o esoterismo de Agripa, com a recusa obsessiva em aceitar que as coisas são porque simplesmente são, uma revolta contra a natureza.

Mas essa minha jornada de forma alguma é recente, se for pra colocar na ponta do lápis provavelmente estou nessa odisseia pelos últimos 6 anos, desde a pandemia, que terminei o ensino médio, fui pra uma faculdade e morei em outra cidade, e me formei e retornei pra minha cidade natal.

Durante a pandemia afundei profundamente na internet e redes sociais e comecei a me descobrir mais sexualmente, isso se estendeu durante a faculdade que cedi completamente nas pulsões de morte, experimentando de tudo, em um emaranhado de culpa e prazer.

Venho de uma cidade pequena no interior da Bahia, minha família é bem tradicional e católica, e crescendo nesse meio foi cultivada uma expectativa, uma imagem sobre mim, um papel maldito que me vi atuando por muito tempo e até hoje mesmo contra a minha vontade.

Morar em outra cidade, longe dessa expectativa permitiu-me “soltar a franga”, e foi bem caótico. Acima de tudo foi traumático, foram anos que eu levei a morte para cama e respirava seu odor sulforoso delicioso, ao mesmo tempo que me afogava em tristeza por ver e sentir o garoto exemplar bondoso do interior se decompor e ser cremado na minha frente, isso tudo culminou em uma crise de identidade insana e eu me recusava a aceitar que eu não era homem, pois se eu não fosse homem que merda eu seria? É como Lyotard fala em Economia libidinal:

“Os desempregados ingleses não precisavam se tornar trabalhadores para sobreviver, eles — aguentem firme e cuspam em mim — gostavam da exaustão histérica, masoquística, o que quer que fosse, de depender das minas, nas fundições, nas fábricas, no inferno, eles gostavam disso, gostavam da louca destruição de seus corpos orgânicos que de fato era imposta sobre eles, gostavam da decomposição de suas identidades pessoais, as identidades que a tradição campesina construiu para eles, gostavam da dissolução de suas famílias e vilas, e gostavam do novo e monstruoso anonimato dos subúrbios e dos pubs de manhã e de tarde.”

Nessa época passei a interagir mais com pessoas queer, seja na internet ou na vida real, comecei a perceber maior afinidade de amizades com mulheres lésbicas e pessoas transgênero, e com o tempo de pouco em pouco fui me reconstruindo e aprendendo a me aceitar, até chegar onde estou hoje.

Voltar pra minha cidade natal foi o choque necessário para “rachar meu ovo”, receber de novo toda aquela carga da expectativa cisnormativa sobre mim foi me tornando mais raivosa e violenta, de forma que eu não conseguia explicar. Tudo isso veio junto com uma paixão por tudo relacionado ao horror, nojo e abjeto na arte.

Quando o ovo não choca ele apodrece, e bom, eu me senti assim. É um fundo do poço miserável, você se odeia, cada centímetro do seu corpo e da sua alma por ser tão apática, indiferente, tão covarde por não assumir rédeas da sua vida e como Dom Quixote lutando contra moinhos de vento, você trava uma luta invisível contra si mesma, e percebe como é impossível poder se libertar dessa vida patética sem mudar totalmente, sem correr riscos maiores.

Isso explica muita coisa na minha vida, minhas afinidades e gostos, os sérios problemas de auto estima que tenho comigo desde os 12 anos que mesmo depois de tentar de tudo continuava não me sentindo bem comigo mesma. Sabe a Owen de I Saw TV Glow falando para a Maddy que ela sente que alguém arrancou algo dentro dela e que ele nunca se sente completo? Então, algo assim.

Vivo numa situação difícil, mesmo tendo feito pazes comigo mesma, não tenho autonomia financeira dos meus genitores, e sou obrigada a performar todo dia o filho ideal que eles não sabem que está morto, imagina todo dia útil da semana você ser obrigada a vestir os restos de um cadáver? Não é muito agradável.

Essa cidade também é um sete além que eu não desejo pra ninguém viver, simplesmente as pessoas não conseguem sequer imaginar uma vida que fuja das tradições reacionárias, algo parecido com A Casa no Fim de Tudo de William Hope Hodgson em que o protagonista descreve um horror surreal que se manifesta como uma planície constante e uniforme sem fim, onde nada acontece, o silêncio é eterno, salpicado pela luz diabólica de um sol negro e vermelho.

Espero que isso não dure muito, espero poder me mudar para Salvador assim que possível, se eu passar mais um ano nessa cidade e nessa casa ou eu irei matar alguém ou eu irei me matar.

 Eu fiz essa escolha, meu povo são as filhas da noite que rejeitaram o gênero e nome impostos sobre elas quando nasceram, podem tentar mas não irão conseguir me manter distante das minhas irmãs por muito mais tempo.


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