NYHC, Freddy Cricien e o problema da comunidade brasileira de hardcore
Nos últimos dias a banda veterana do Hardcore Punk de Nova York, Madball, fez um show em Goiânia, entretanto acabou acontecendo uma polêmica nos bastidores do show, que reviveu nas redes sociais discussões sobre as controvérsias políticas dentro da cena Punk.
Após o show, um fã com uma bandeira antifascista foi tirar uma foto com Freddy Cricien, frontman da banda e foi barrado por um dos membros da equipe da banda, que tomou a bandeira e a jogou no chão, berrando “antifa não!!”, a atitude de Freddy foi de tentar apaziguar a situação, deixando muita gente da comunidade brasileira frustrada, uma vez que se você não é antifascista, logo você é um fascista certo? (ou não).
E junto com isso resgataram o fato de que Freddy durante a pandemia, junto com alguns outros nomes do Punk americano, fizeram uma grande campanha antivax, fazendo alguns comentadores interligarem esses dois acontecimentos e associando o canto ao trumpismo e a uma direita reacionária.
Seria confortável para mim endossar o pensamento hegemônico dentro da cena e jogar pedras no Freddy, mas infelizmente nasci com um dom e maldição que é minha insaciável natureza questionadora, então nesse texto gostaria de fazer um exercício de autocrítica.
Existe um problema enorme em todo esse status quo político do movimento aqui no Brasil, e a maior prova é o evento “hardcore contra o fascismo” ter anunciado a presença do padre Júlio Lancelotti como palestrante, o mesmo que endossa o discurso de uma instituição conservadora e reacionária, que afirma que pessoas transgênero são tão nocivas para sociedade quanto armas nucleares.
Esse só foi um exemplo recente para mostrar até onde vai os limites dessa performance antifascista da cena atualmente, é vazio de radicalidade, usa a higienização e oba oba de movimento estudantil como muleta, se negando a encarar de frente as próprias contradições de uma contracultura que, pasmem, nunca se propôs a ser ativismo institucional.
Punk é rock sujo e marginalizado, é uma expressão criativa que surge da necrópole, são corpos dissidentes que através do som estão narrando o quão podre é o mundo da ponte para cá, nunca foi sobre paroquializar uma luta coletiva homogênea universal, é sobre caos e desordem, é o começo e o fim, é a estética da auto destruição criativa.
Evidentemente que dentro dessa cultura foram surgindo segmentações, como os Anarcopunks, que esses sim tem uma proposta militante e ativista, mas eles não são a única forma válida de cultura Punk, é usar a parte pra encaixotar uma pluralidade caótica que é a contracultura.
E em especial quando falamos do Punk e do Hardcore de Nova York, é onde a ala paroquialista e assimilacionista do progressismo hegemônico mais tem dificuldades de lidar sem apelar para um maniqueísmo tosco, pois essa cena impulsionada pelo contexto hostil e selvagem que são os subúrbios dessa cidade levaram os “Tough Boys” a elevarem o caos a níveis jamais vistos antes.
Nova York talvez seja um dos maiores infernos de concreto que surgiram na civilização ocidental, desde os anos 70 a cidade veio se afundando em uma miséria urbana que desafia a lógica, prédios em chamas, especulação imobiliária violenta, desemprego em massa, acúmulo de lixo nas ruas.
Tudo isso gera uma paisagem áspera que vai ser o ninho do chamado NYHC (New York Hardcore) que Freddy e Madball são representantes, refletindo a apatia, violência e lixo que foram despejados neles pela cidade maldita na forma de som e contracultura, incorporando elementos do Hip Hop e da estética Gangsta, com tatuagens, bonés e esse tipo de coisa.
Mas a brutalização não ficou apenas no visual, o NYHC, através de seus precursores, o Agnostic Front, foram um dos pioneiros do que se chamaria “Crossover Thrash”, uma fusão entre o Hardcore Punk e o peso do Thrash Metal.
Madball foi o sucessor do Agnostic Front, Freddy cresceu dentro da banda, uma vez que Roger Miret, vocalista do Agnostic Front era seu irmão mais velho, ambos filhos de imigrantes latinoamericanos.
Madball marcou uma nova mudança de paradigmas dentro do NYHC, introduzindo o groove dentro daquele hardcore metálico, abrindo espaço para incorporar o Flow do Rap. Freddy nunca escondeu sua admiração pela cultura Hip Hop, possui uma carreira solo focado no estilo musical, e no excelente álbum de estúdio For the Cause, o mais recente da banda, a música “Evil Ways” tivemos a participação especial do ICE-T, vocalista da banda de Rap Metal e Crossover Thrash Body Count, reforçando o vínculo entre o NYHC e o Gangsta Rap e cultura Hip Hop.
A questão é que, dentro da proposta estética de devolver a sujeira empurrada contra eles, o quadro transmitido não possui recortes e filtros, e isso inclui a reprodução de comportamentos reacionários, como o apego ao masculinismo, “lei do mais forte”, e esse tipo de coisa.
E por abraçar completamente o que há de ruim e sujo nos becos escuros das metrópoles, o NYHC não conseguem ser engolidos por uma ala assimilacionista do Punk, que não conseguem lidar com o fato de que os indivíduos dessa contracultura não são super heróis, são pessoas quebradas e horríveis que tiveram que conviver com demônios para sobreviver nas ruas.
Não estou dizendo que o NYHC e essa visão de mundo compartilhada entre eles baseada em uma glorificação da violência urbana não é passível de crítica também.
Mas toda crítica que não leva a trajetória histórica da cultura que Freddy representa, tá fadada a morrer na areia da praia. Freddy e o membro da sua staff são muito mais complexos e contraditórios do que um simples rótulo pra demarcar inimigos, se negando a encarar a problemática ligada com o próprio estabelecimento dessa cultura, tapar o sol com a peneira.
No Punk e Hardcore não existe esse consenso sobre unidade ideológica, fora que muitas classificações seguem uma lógica moderna que não chega em quem sobrevive na noite eterna do crepúsculo das luzes do “extermino, logo existo”.
O caos e a contradição sempre estiveram presentes, o que não dá é sempre que nos depararmos com algo que contraria nossos valores, caricaturizar um personagem tão importante para a história da contracultura e do Hardcore Punk como um fascista, ao mesmo tempo que estão dando corda ao pão e circo de um sacerdote de uma religião que persegue minorias sociais a mais de 500 anos desse país e queimou bruxas em fogueiras.
É fácil se esconder atrás de muros, encarar o colapso e arranhar do escudo narcísico, quando exposta a fragilidade e contradição das nossas crenças inabaláveis é mais difícil, lidar com o desconhecido assusta. Essa molaridade paroquialista infelizmente nunca será capaz de condensar a besta desacorrentada que é o Punk Molecular.
Meu apelo é que saiam da Matrix, e amadurecam quanto a história da contracultura Punk, afinal como higienizar algo que surge da sujeira, do caos e do lixo? Monstrifiquem-se.

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